sexta-feira, 10 de junho de 2022

PARCERIA ENTRE DEEQ, FOQS E PC KIZOMBA, JUNTOS POR UMA EDUCAÇÃO QUILOMBOLA DE QUALIDADE





Escola São Pedro - Quilombo Bom Jardim.
Foto: Aldo Lima, 2022.


Escola São Pedro - Quilombo Bom Jardim.
Foto: Aldo Lima, 2022.

Escola São Pedro - Quilombo Bom Jardim.
Foto: Aldo Lima, 2022.

Durante o mês de maio a Divisão de Educação Escolar Quilombola – DEEQ, da Secretaria Municipal de Educação e Desporto (SEMED) de Santarém, esteve realizando em parceria com a Federação das Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS) e Ponto de Cultura Kizomba um circuito de rodas de conversas sobre os valores afro-brasileiros desenvolvidos no espaço escolar e no quilombo como um todo.

Escola Afroamazônida (N. Sra. da Guia) - Quilombo Murumuru.
Foto: Aldo Lima, 2022.

Escola Afroamazônida (N. Sra. da Guia) - Quilombo Murumuru. 


As rodas de conversas ocorreram durante as visitas administrativo-pedagógicas da DEEQ às escolas quilombolas da região do planalto santareno. Das visitas participaram, além da coordenação da DEEQ, Leandro Laurindo e Márcio Guimarães, o presidente da FOQS, Mário Pantoja, a secretária da FOQS, Miriane Coelho e produtor cultural e o coordenador do Ponto de Cultura Kizomba, Aldo Lima. 

Escola São Sebastião - Quilombo Murumurutuba.
Foto: Aldo Lima, 2022.

Escola São Sebastião - Quilombo Murumurutuba.
Foto: Aldo Lima, 2022.


Essas rodas de conversas foram muito importantes para verificar o nivelamento de implementação da Lei 10.639/2003 que orienta o estudo da história e cultura afrobrasileira e africanas nas escolas públicas e privadas em todo o país.

Durante a visita na Escola Santa Maria - Quilombo Patos do Ituqui.
Foto: Márcio Guimarães, 2022.

Visita à Escola Santa Maria - Quilombo Patos do Ituqui.
Foto: Aldo Lima, 2022.

Escola São João Batista - Quilombo Tiningu.
Foto: Aldo Lima, 2022.

Escola São João Batista - Quilombo Tiningu


Texto: Aldo Luciano Corrêa de Lima (antropólogo e coordenador do Ponto de Cultura Kizomba).

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

AÇÃO ITINERANTE DE SAÚDE - OMULU TERRA DE QUILOMBO NA COPA QUILOMBOLA

 

Durante a abertura da I Copa Quilombola, realizada neste dia 07 de novembro, no quilombo de Nova Vista do Ituqui, a Federação das Organizações Quilombolas de Santarém - FOQS, através da equipe de voluntários e parceiros do projeto Omulu - Terra de Quilombo: Cuidando de Vidas Ancestrais, promoveu mais uma ação itinerante de saúde. 







A ação contou com os serviços de verificação de pressão arterial, tipagem sanguínea;  coleta de PCCU, teste de glicemia e orientação de enfermagem. A ação decorrente em decorrência da realização da I Copa Quilombola de Santarém onde participaram quilombolas de Nova Vista do Ituqui, São Raimundo do Ituqui, São José do Ituqui e Saracura.








Participaram da ação acadêmicos do curso de enfermagem, farmácia e técnico de enfermagem da Universidade do Estado do Pará - UEPA e Centro de Educação Profissional Esperança - CEPES Contou ainda com uma parceria da Terra de Direitos, Colônia de Pescadores Z-20, Ponto de Cultura Kizomba, Jaime Fotografia, Igreja N. Sra. das Graças e Associação Quilombola de Nova Vista do Ituqui - ARQNOVI.





















sábado, 16 de outubro de 2021

FOQS INICIA QUALIFICAÇÃO DE JOVENS COMUNICADORES/AS QUILOMBOLAS

Mística de abertura do encontro. Ancestralidade, identidade e comunicação
Foto: Marluce Coelho (2021).

A FOQS – Federação das Organizações Quilombolas de Santarém juntamente com a ProEpi - Associação Brasileira de Profissionais de Epidemiologia de Campo iniciarão a qualificação de Jovens Comunicadores/as Quilombolas que abrangerão os quilombos dos municípios de Santarém e Prainha. O objetivo da proposta é que os/as jovens possam contribuir na viabilidade de novas ferramentas comunicacionais que contribuam para o monitoramento e sistematização dos dados relativos à COVID-19 nos territórios quilombolas. Ao total serão oito encontros formativos que qualificarão os/as jovens e os/as possibilitarão desenvolver novas capacidades comunicacionais utilizando equipamentos como o celular, por exemplo.

Jovens Comunicadores/as Quilombolas, novos sonhos
Foto: Aldo Lima (2021)


Simultaneamente às formações promovidas pela ProEpi, alguns momentos serão realizados pela FOQS para que haja uma formação integral no âmbito étnicorracial dos/as jovens. Nesse primeiro encontro, ocorrido neste último dia 15, o antropólogo Aldo Lima e coordenador do Ponto de Cultura Kizomba dinamizou a temática sobre ancestralidade, identidade e comunicação. Também o presidente da FOQS, Mário Pantoja e a secretária e vice-coordenadora do Grupo de Mulheres Quilombolas Na Raça e Na Cor, Miriane Coelho, apresentaram brevemente sobre a história e organização da FOQS. Em seguida a coordenadora do Projeto Omulu – Terra de Quilombo, Marluce Coelho apresentou os objetivos e atividades da parceria com a ProEpi e direcionou o cadastramento da plataforma digital da ProEpi. O projeto contará com a participação de 09 jovens e 03 tutores.

Miriane Coelho apresentando a organização da FOQS
Foto: Aldo Lima (2021)

Mário Pantoja apresentando a história da FOQS
Foto: Aldo Lima (2021)


Foi um bonito encontro cheio de muita autoafirmação e autoconhecimento étnico. A primeira formação com a ProEpi inicia neste dia 26 de outubro de forma virtual. A FOQS e o Projeto Omulu estão muito felizes com essa nova parceria e animados para que os/as jovens possam inserir-se e abraçar os processos comunicacionais fortalecendo, assim, cada vez mais o movimento quilombola de Santarém e possibilitando criar o panorama da COVID-19 nos territórios quilombolas.

Aldo Lima dinamizando a temática sobre ancestralidade, identidade e comunicação.
Foto: Marluce Coelho (2021)

 

Marluce Coelho, coordenadora do Projeto Omulu, apresentando os objetivos e atividades da parceria junto à ProEpi
Foto: Aldo Lima (2021)



Por Aldo Luciano Corrêa de Lima

Coordenador do Ponto de Cultura Kizomba

 

#foqs

#omuluterradequilombo

#cuidandodevidasancestrais

#proepi


terça-feira, 12 de outubro de 2021

FORTALECIMENTO CULTURAL DO QUILOMBO ARAPEMÃ

Desde o fim de 2019, com mais intensidade, o quilombo Arapemã vem investindo recursos humanos e financeiros no fortalecimento de sua cultura. Com o apoio do Edital de Pontos e Pontões de Cultura da Lei Aldir Blanc, do estado do Pará, o Edital Abraçando os Pontos de Cultura do Pará, com apoio da VALE e através do Ponto de Cultura Kizomba tem sido possível a realização desse fortalecimento. 


Na coordenação de Aldo Luciano Corrêa de Lima, antropólogo e produtor cultural, o Ponto Kizomba tem se revigorado estruturalmente e em suas ações culturais entre os quilombos de Santarém, do qual representa as manifestações e expressões culturais quilombolas. Atualmente o Ponto Kizomba também conta com a assessoria de Marluce Coelho e Miriane Coelho e tem como direção maior, uma vez que o Ponto Kizomba é um organismo dentro da FOQS – Federação das Organizações Quilombolas de Santarém, o senhor Mário Augusto Pantoja.
 
Oficina de rememoração - Grupo Magia de Carimbó (21.11.2020). Quilombo Arapemã/Santarém-PA.
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2020)


Oficina de rememoração - Grupo Magia de Carimbó (21.11.2020). Quilombo Arapemã/Santarém-PA.
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2020)


Oficina de rememoração - Grupo Magia de Carimbó (21.11.2020). Quilombo Arapemã/Santarém-PA.
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2020)


Para cumprimento do projeto apresentado para o supracitado edital, nominado de ESPETÁCULO BEIRA DO RIO, foi ainda necessária a parceria de muitos grupos e pessoas. O Espetáculo Beira do Rio é composto pelo Grupo Magia de Carimbó, Grupo de Capoeira Força do Negro, Grupo Pretinhas do Arapemã e a cantora Cleide Vasconcelos. Esses grupos juntamente com a diretoria da Associação Comunitária de Remanescentes de Quilombo de Arapemã – ACREQARA e a Escola Municipal de Ensino Fundamental N. Sra. Santana somaram forças à implementação do projeto.

Oficina de Carimbó. Escola N. Sra. Santana. Quilombo Arapemã (13.05.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)



Oficina de Carimbó. Escola N. Sra. Santana. Quilombo Arapemã (13.05.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Oficina de Carimbó. Escola N. Sra. Santana. Quilombo Arapemã (13.05.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Ao longo desses dois anos foram realizadas 03 reuniões (18.11.2020; 28.12.2020 e 10.01.2021) com a diretoria da ACREQARA e com a escola, sendo uma delas de forma ampliada, com a participação de todos os demais comunitários (10.01.2021). Foram ainda realizadas 03 oficinas de rememoração e fortalecimento das manifestações culturais quilombolas. A primeira ocorreu no dia 21.11.2020 com a oficina de carimbó onde foi feito a rememoração histórica e de organização do grupo. Foi ainda discutido sobre a patrimonialização do carimbó e os estudos realizados pelo IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Oficina de Capoeira. Escola N. Sra. Santana. Quilombo Arapemã (13.05.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Oficina de Capoeira. Escola N. Sra. Santana. Quilombo Arapemã (13.05.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Já no dia 11.12.2020 foi a vez do grupo de capoeira Força do Negro realizar sua oficina e no dia 19.12.2020 a oficina com o grupo de Pretinhas do Arapemã. Todas as oficinas tiveram como objetivo realizar esse momento de rememoração histórica e organizacional, tendo como base de reflexão a trajetória de cada grupo e o que foi produzido pelo IPHAN. Essas primeiras oficinas dedicadas aos participantes dos próprios grupos foram de fundamental importância para o revigoramento das manifestações culturais e para o seu fortalecimento. 

Oficina das Pretinhas do Arapemã.
 Escola N. Sra. Santana. Quilombo Arapemã (13.05.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Oficina das Pretinhas do Arapemã.
 Escola N. Sra. Santana. Quilombo Arapemã (13.05.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Após meses de ensaio, mesmo com muitas dificuldades em decorrência da pandemia, o Espetáculo Beira do Rio foi gravado, uma vez que não foi permitida a realização de atividades com a presença de grande público. Dessa forma foi realizada uma produção audiovisual que está disponível nas redes sociais do Ponto de Cultura Kizomba. Para assistir ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=wMq5vQDUqn8

Oficina de Carimbó com alunos da Escola N. Sra. do Livramento
. Quilombo Saracura (07.06.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Oficina de Carimbó com alunos da Escola N. Sra. do Livramento
. Quilombo Saracura (07.06.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Dando seguimento às atividades do projeto ainda foram realizadas duas vivências culturais. A primeira ocorreu no dia 13.05.2021, na escola municipal de ensino fundamental N. Sra. Santana, no próprio quilombo Arapemã, onde o grupo de capoeira Força do Negro, o grupo Magia de Carimbó e o grupo Pretinhas do Arapemã pudera compartilhar e realizar a vivência cultural de suas expressões para alguns alunos da escola. No mês seguinte, em 07.06.2021, foi a vez do quilombo Saracura. Lá o Espetáculo Beira do Rio contou com a parceria da Associação Comunitária de Remanescestes de Quilombo de Saracura – ACREQSARA e a Escola Municipal de Ensino Fundamental N. Sra. do Livramento. Partes do espetáculo ainda foram apresentadas no II Seminário de Cultura Quilombola realizado no dia 09.07.2021, na sede da FOQS e do Ponto de Cultura Kizomba, na cidade de Santarém. 

Oficina das Pretinhas do Arapemã com alunos da Escola N. Sra. do Livramento
. Quilombo Saracura (07.06.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Oficina das Pretinhas do Arapemã com alunos da Escola N. Sra. do Livramento
. Quilombo Saracura (07.06.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Oficina de Capoeira com alunos da Escola N. Sra. do Livramento
. Quilombo Saracura (07.06.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Oficina de Capoeira com alunos da Escola N. Sra. do Livramento
. Quilombo Saracura (07.06.2021)/Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Aldo Lima, 2021)


Espera-se que a organização e fortalecimento cultural de Arapemã seja inspiração para os demais quilombos de Santarém e que a revolução e a resistência negra continuem ocorrendo por meio da cultura.
Apresentação das Pretinhas do Arapemã no II Seminário de Cultura Quilombola (09.07.2021) - Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Jaime Carvalho, 2021)


Apresentação das Pretinhas do Arapemã no II Seminário de Cultura Quilombola (09.07.2021) - Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Jaime Carvalho, 2021)


Apresentação do Grupo Magia de Carimbó no II Seminário de Cultura Quilombola (09.07.2021) - Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Jaime Carvalho, 2021)


Apresentação do Grupo Magia de Carimbó no II Seminário de Cultura Quilombola (09.07.2021) - Santarém-PA
Foto: Acervo Ponto de Cultura Kizomba (Jaime Carvalho, 2021)



“ESTE PROJETO É APOIADO PELA SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA, COM RECURSOS PROVENIENTES DA LEI FEDERAL N.º 14.017, DE 29 DE JUNHO DE 2020”

Edital Pontos e Pontões de Cultura - Aldir Blanc Pará

Por Aldo Luciano Corrêa de Lima
 (antropólogo, produtor cultural e coordenador do Ponto de Cultura Kizomba)

domingo, 6 de junho de 2021

GRIÔS DA TERRA - ANCESTRALIDADE E MEMÓRIA DO QUILOMBO PATOS DO ITUQUI

 

O griô Tobias e as contações de histórias . Quilombo Patos do Ituqui, 2021.
Contação de histórias. Quilombo Patos do Ituqui. Santarém/PA
Foto: Jaime Carvalho, 2021.

O quilombo Patos do Ituqui, localizado nas mediações do lago Maicá, em Santarém – Pará,  tem suas reminiscências históricas coloniais que remontam à fazenda escravocrata Taperinha. As experiências de sofrimento e trabalho escravo inflingida às famílias negras escravizadas até o final do século XIX na região do planalto santareno ainda possuem reverberações nos dias atuais.

“A avó de vocês, Maria de Lourdes, nasceu em Taperinha. Os pais dela eram escravos. Quando foi vendida a Taperinha, acabou a escravatura. Aí ficaram eles como escravos...sempre ficaram lá”.

“Ela mandou que fossem embora, não deu remo, não deu nada. Eles foram empurrando a canoa de vara nesse Maicá, nesse Iayá...depois ela mandou tacar fogo nas casas deles”.

“Depois que eles foram expulsos da Taperinha, se acamparam na ilha do Marajó. O seu Lauro sabendo que eles estavam de bebê novo, disse pra eles escolherem um lugar nos limites dele. Eles demoraram três dias cortando picada aí nesse Maicá, até chegar aqui”.

“Seu Lauro perguntou pra eles o que tinham achado mais bonito aqui. Ele falou: ‘Dotô, o que eu achei bonito nesse lugar são esses patos’. Assim surgiu o nome. Primeiro ‘os Patos’, depois só ‘Patos’. ‘Então o nome desse lugar vai ser Patos’”.

(Seu Tobias, Quilombo Patos do Ituqui)

 

Narrar a história de Patos do Ituqui é trazer à tona um pouco da narrativa de escravidão ocorrida na fazenda Taperinha. É olhar para o passado através da perspectiva dos filhos e filhas daqueles e daquelas que foram escravizados ou estiveram em trabalhos análogos à escravidão até o século passado.

“A gerente de lá mandou chamar o papai. Ela queria castanha nova (castanha do Pará). Queria que ele trepasse na castanheira pra pegar a castanha.  O papai disse que não porque nunca tinha trepado e não sabia subir na castanheira. Ela falou que ele tinha que ir: ‘Não, tem que ser agora, tem que ser agora!’ Aí, ele meio cismado, trepou até um pedaço, quando ele não aguentou mais, ele se jogou de lá. Nessa jogada dele, ele se quebrou todinho. Eles não deram assistência, só disseram pro meu avô vir buscar o papai”.

(Seu Tobias, Quilombo Patos do Ituqui)

 

            Relatos chocantes como esse do pai de Seu Tobias que aos 37 anos foi persuadido a fazer o que não queria por conta de sua condição de “trabalhador” e dependente da fazenda Taperinha o levaram a esse episódio trágico que o levou à morte trinta anos depois em decorrência de inúmeras complicações dessa queda e de um câncer. Foram 30 anos de sofrimento ocasionados por esse episódio em pleno século XX.

GRIÔS DA TERRA - ANCESTRALIDADE E MEMÓRIA DO QUILOMBO PATOS DO ITUQUI, mas do que simplesmente – o que não é simples – trazer memórias, algumas delas de sofrimento, é uma iniciativa de mostrar o quanto as famílias negras conseguiram resistir e lutar contra a escravidão e, hoje, através dessas narrativas conseguem articular e consolidar sua identidade, sua ancestralidade, por meio da contação de histórias realizada pelas pessoas mais idosas e adultas junto às crianças do quilombo.

“Quando vocês crescerem, vocês vão contar essas histórias como eu falei pra vocês. Já tão tudo sabendo”

(Seu Tobias, Quilombo Patos do Ituqui)

 

Algo muito presente nas narrativas são o desejo de alcançar os direitos que lhe cabem, principalmente o territorial. Cada conquista de direito é celebrada e lembrada com muito orgulho e isso é transmitido para os mais jovens.

Família Almeida. Quilombo Patos do Ituqui. Santarém/PA
Imagem: Jaime Carvalho, 2021.


“É importante  pra nós aprender a ocupar os nossos espaços. Isso daí a gente vem trazendo. Como os nossos antepassados não tiveram esses direitos, nós estamos conquistando eles...”

“Sabendo a história, lá atrás,  dá cada vez mais vontade de lutar e ocupar nosso espaço, porque lá atrás, alguém pagou o preço por isso e não é nada mais que justo a gente ocupar nossos espaços e conseguir nossos direitos”

(Gilmar Nogueira, Quilombo Patos do Ituqui)

 

Patos do Ituqui é um quilombo vocacionalmente conflitivo em decorrência de sua trajetória histórica. Sua questão territorial continua incomodando a muitos a ponto de inflingir ameaças de morte a uma das lideranças do quilombo até pouco tempo. No entanto, também é um lugar de quilombolas sempre agradáveis e acolhedores, entre eles o prestimoso “Seu Tobias”, sempre disposto a conversar e contar inúmeras histórias a quem chega ao quilombo.

O griô Seu Tobias. Quilombo Patos do Ituqui. Santarém/PA
Foto: Jaime Carvalho, 2021


Com uma rica biodiversidade, mesmo cercado de latifúndios, as águas do lago Maicá que banham o quilombo, é um convite à parte para o desfrute de um refrescante banho do grande trapiche, em dias ensolarados do inverno amazônico. E não é só isso que é rico. Há muitas histórias fruto da experiência do cotidiano que os quilombolas aprenderam com seus antepassados e que vem sendo repassadas de pais para filhos, como podemos ver adiante.

“Eu quando criança, vi a minha mãe...ela saía pra lavar roupa no igarapé e aí quando era final de semana se juntava muitas mulheres, desciam pro igarapé pra lavar roupa e a gente descia pra ficar junto...Tinha uma senhora que o esposo dela não ligava muito pra ela, pra casa, pra família, ele não se ligava muito. E aí ela descia pra lá também pra lavar as roupas dela. Como ela não tinha o sabão pra lavar as roupas dela e era muita criança que ela tinha, era muita roupa. Aí ela saia pedindo. Ela dizia pras amiga, colegas lá: ‘Ô minha mana, me dá uma passada do teu sabão aí?’ E assim ela ia dizendo pras outras...até que ela ia conseguindo lavar todas as roupa dela. Aí as outras amigas às vezes diziam: ‘Mas ela não trouxe sabão, coitada! Vamo dá pra ela o sabão’. E assim ela conseguia lavar e manter as roupas dos filhos dela limpa”.

(Célia, Quilombo Patos do Ituqui)

 

Ano passado a ARCQUIPATOS – Associação Remanescente da Comunidade Quilombola de Patos do Ituqui foi contemplada pela Lei Aldir Blanc de emergência cultural, como espaço cultural, no município de Santarém, e por meio ação GRIÔS DA TERRA - ANCESTRALIDADE E MEMÓRIA DO QUILOMBO PATOS DO ITUQUI vem demonstrando um pouco de sua produção cultural e dos saberes compartilhados pelos seus griôs, mestres e mestras do saber, da contação de histórias sobre o quilombo, que em breve será mostrando em forma de etnodocumentário. É por meio deles e delas que a identidade cultural do quilombo se reafirma e se consolida cotidianamente.

Banho do trapiche. Quilombo Patos do Ituqui. Santarém/PA.
 Foto: Jaime Carvalho, 2021.

O etnodocumentário GRIÔS DA TERRA - ANCESTRALIDADE E MEMÓRIA DO QUILOMBO PATOS DO ITUQUI é uma produção da ARCQUIPATOS em parceria com o Ponto de Cultura Kizomba e a Federação das Organizações Quilombolas de Santarém – FOQS e com o apoio da Lei Aldir Blanc – Pará, implementada pela Secretaria de Estado de Cultura do Pará (SECULT), em âmbito local por meio da Secretaria Municipal de Cultura de Santarém e em âmbito Federal por meio da Secretaria Especial de Cultura e Ministério do Turismo.

 

 

 

 

 

Por Aldo Luciano Corrêa de Lima[1]

 



[1] Antropólogo; Produtor Cultural; Coordenador do Ponto de Cultura Kizomba e assessor de projeto da Federação das Organizações Quilombolas de Santarém – FOQS.